Alerta ambiental para o Semiárido (7/4/2010)

Fonte: Diário do Nordeste

Desmatamento e queimada feitas às margens do Açude Castanhão, uma área de preservação ambiental. A prática antiga de manejo do solo ainda é comum entre os agricultores

A inclusão do Ceará em situação de emergência ambiental amplia o debate entre os órgãos ambientais

Iguatu. O Ceará atravessa um período de baixa pluviometria e irregularidade das chuvas, características de uma seca. Em face desse quadro, o Ministério do Meio Ambiente incluiu o Estado em situação de emergência ambiental. A medida é preventiva. A motivação são os focos de incêndios florestais em áreas de preparo de plantio, detectados por satélite. Em anos de estiagem, há uma tendência ao crescimento de queimadas.

A inclusão do Ceará em situação de emergência ambiental amplia o debate entre os técnicos e órgãos que atuam no setor do meio ambiente. Revela, por um lado, a necessidade de fortalecimento de políticas públicas para reduzir ou mesmo eliminar um hábito, antigo, arraigado, cultural, entre os agricultores, de cortar a mata nativa e fazer a broca para o preparo de área de plantio.

A secretária executiva do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam), Goretti Gurgel, disse que somente com o esforço coletivo e a participação intensa dos municípios é que essa realidade no Ceará será modificada. “É preciso fortalecer as estruturas das secretarias municipais, descentralizar a gestão ambiental, pois os problemas ocorrem nos municípios”, frisou. “Estamos fazendo um esforço nesse sentido quando oferecemos cursos e treinamentos”.

Apesar da inclusão do Ceará na lista do Meio Ambiente, Goretti Gurgel disse que o número de queimadas caiu 20% em média nos últimos cinco anos. “Na realidade, ainda não sabemos em que dados o Ministério se baseou para incluir o Ceará na lista de emergência ambiental”, observou. “Acreditamos que é uma ação preventiva, visando à liberação de recursos nos programas de prevenção e combate aos focos de incêndios”.

“Quando o ano é seco, favorece a ocorrência de focos de queimadas”, observa Goretti Gurgel. “Estamos atravessando um período de estiagem, daí a necessidade de alerta”. O Ministério do Meio Ambiente está preocupado com as áreas remanescentes da Caatinga.

Ações preventivas

A proposta do Ministério do Meio Ambiente é priorizar, nesse momento, as ações preventivas do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). No Ceará, há o Programa de Prevenção, Monitoramento, Controle de Queimadas e Combate aos Incêndios Florestais (Previna), que forma brigadas voluntárias regionais.

De acordo com o Conpam, serão aplicados pelo Governo do Estado, R$ 350 mil para a formação de 11 brigadas, em parceria com o Ibama, capacitação e aquisição de kits de combate aos incêndios florestais no Interior.

No decorrer do segundo semestre, no período de agosto a dezembro, ocorrem com maior incidência as queimadas no sertão cearense. É o tempo de o agricultor preparar a terra para o plantio de sequeiro feito entre janeiro e março.

O chefe do escritório do Ibama, em Iguatu, Fábio Bandeira, avalia também que nos últimos quatro anos houve uma redução dos focos de queimadas. “É uma questão que passa pela conscientização dos produtores rurais, de mudança de hábito e cultura, por isso, não é fácil. Todos os anos promovemos reuniões nos municípios e alertamos contra as queimadas”.

O secretário de Meio Ambiente de Iguatu, Valdeci Ferreira, disse que é preciso mostrar para os agricultores alternativas de preparo de solo e outros modelos de produção. “Aqueles que não encontram outros meios, ficam presos ao sistema antigo, que agride a natureza, causa poluição e desgaste do solo”.

Acopiara, que lidera o ranking de desmatamento no Ceará, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, promoveu seminário de preservação da Caatinga. “Isso mostra a preocupação do município”, disse Goretti Gurgel. “O esforço local em parceria com vários órgãos é o melhor caminho”.

FIQUE POR DENTRO

Consequências

No sertão, a antiga prática das queimadas contribui para a gradual esterilização do solo, acidificando-o e destruindo grande parte de sua micro vida, os nutrientes. O fogo que se alastra mata animais e destrói o habitat da fauna. As queimadas são as responsáveis pela maioria dos incêndios florestais. Depois de algum tempo, provocam a desertificação do solo. Liberam gases tóxicos (CO2) que poluem a atmosfera deixando-a mais suscetível a fenômenos que prejudicam o meio ambiente como o efeito estufa.

MAIS INFORMAÇÕES
Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam)
(85) 3101. 1233/ Escritório do Ibama em Iguatu: (85) 3581. 2349

SEMINÁRIO

Produtores rurais debatem manejo da Caatinga

Acopiara. Para discutir o desmatamento e os inúmeros focos de queimadas e tentar encontrar alternativas de convivência no semiárido, foi realizado, no auditório do Centro de Ensino Tecnológico, o I Seminário Municipal do Manejo da Caatinga. O evento reuniu técnicos e produtores rurais. Três experiências locais, economicamente viáveis e ecológicas, foram demonstradas para a plateia.

O desmatamento desenfreado da Caatinga tem preocupado o secretário do Meio Ambiente de Acopiara, Luis Gomes Lucas. “É um problema sério. Acreditamos que a conscientização dos produtores rurais seja o melhor caminho para modificar a tendência atual de agressão ao meio ambiente”. Apostando na educação e no conhecimento como ferramentas de transformação, a Secretaria do Meio Ambiente do Município, em parceria com a Ematerce local, promoveu o seminário. “Enquanto os agricultores não compreenderem a dinâmica própria do semiárido, o desmatamento e as queimadas vão persistir”, disse o gerente da Ematerce, Rubens de Lima. “Daí a importância desse evento”. Por quase seis horas, agricultores, técnicos, sindicalistas, representantes de associações comunitárias debateram a agressão ao bioma Caatinga. Discutiram alternativas de produção sem afetar o meio ambiente. Ouviram relatos de experiências exitosas. “Avalio que o encontro alcançou os seus objetivos”, disse Rubens de Lima.

Segundo Lucas, três causas contribuem diretamente para que o homem do campo continue desmatando a Caatinga: hábito cultural de desmatar e queimar restos de cultura para o plantio de inverno, ampliação de área de cultura de milho e abertura de campos de pastagem para a criação de gado.

“O nosso desafio é reduzir o desmatamento e as queimadas”, disse. Para convencer os agricultores e criadores a abandonar práticas antigas, os organizadores do evento convidaram o produtor rural, Estácio Arrais, para mostrar o modelo de manejo da Caatinga, no Município, preservando o meio ambiente. Em duas fazendas, Cantinho e Boa Água, de 300 hectares cada, na região de Trussu, em Acopiara, Arrais há quatro anos começou a implantar uma gestão moderna que preserva o meio ambiente. “Preservamos as árvores da Caatinga, apenas fazendo raleamento e abrindo pequenos espaços, plantamos capim corrente e aproveitamos o esterco e a forragem”, contou. “O gado fica protegido do sol, o capim preserva o solo e cria-se um ciclo virtuoso na área”.

Arrais contou que em uma dessas áreas colocou, há um ano, 160 cabeças de bovinos e os animais engordaram e se alimentaram com facilidade. “Se fosse no modelo tradicional, não daria certo. No verão, o capim teria morrido”.

Outras experiências da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Projeto Mandala e Agroflorestal, no Município, também foram apresentadas no seminário. A Secretaria gravou um DVD sobre os projetos ecológicos e pretende divulgá-los para outros produtores rurais.

Conquista

“Pode-se reverter o desmatamento. O conhecimento deve chegar aos agricultores”
Rubens de Lima
Chefe do escritório da Ematerce

“Consigo criar bovinos e cultivar grãos, preservando árvores da Caatinga e o solo”
Estácio Arrais
Produtor

“Acopiara é campeão em queimadas e desmatamento. Queremos mudar isso”
Luis Lucas
Secretário do Meio Ambiente de Acopiara

MAIS INFORMAÇÕES:
Secretaria do Meio Ambiente de Acopiara
Centro-Sul
(88) 3565. 0116

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