Primeiras Letras: projeto ou ferramenta?
Batemos um papo com Daniel Raviolo, Coordenador-Geral da ONG Comunicação e Cultura e Secretário Executivo da Rede Jornal Escola. Ele explica por que o Primeiras Letras é uma “ferramenta” e não um “projeto”.
Confira a entrevista:
Daniel, por que se fala agora de “ferramenta” e não de “projeto” Primeiras Letras?
A palavra “projeto” tem vários significados no mundo da educação. Ela remete à construção de uma visão pedagógica (falamos então do Projeto Pedagógico da escola), à uma maneira de integrar a aprendizagem (falamos então de pedagogia de projetos) ou ainda às atividades das quais as escolas são convidadas a participar de forma temporária ou mais ou menos permanente. Estes últimos “projetos” são os mais problemáticos porque, apesar de se referirem frequentemente aos conteúdos transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais e ao ideal de interdisciplinaridade e integração, acabam constituindo, na maioria das vezes, atividades paralelas ou extras. As escolas vivem isso muito mal.
Por que essa afluência de “projetos” na escola?
Na década de 90, como resultado da visão de direitos que se instalou após a Constituição de 1988 e da própria pressão da modernização econômica – que requer trabalhadores mais qualificados – a sociedade redescobriu a escola pública. O fenômeno é positivo, obviamente, mas na esteira do entusiasmo passou a se ver na escola a solução para um conjunto muito diversificado de situações, desde a educação no trânsito até a prevenção ao consumo de drogas, passando por uma infinidade de outras questões. Como integrar atividades transversais no espírito dos PCN não é fácil – pois exige bastante dedicação e capacitação dos professores -, o resultado foi que esses projetos correm geralmente em paralelo às atividades curriculares. Eles acabam constituindo uma tarefa a mais para os já sobrecarregados educadores. Daí uma resistência bastante evidente aos “projetos”.
Como fica o Primeiras Letras?
Entre os paradigmas do Primeiras Letras está a integração com as atividades de sala de aula. Sendo assim, começamos a nos questionar o porquê desta denominação “projeto” que adotávamos. O professor ou a professora não pára o que está fazendo para se dedicar ao jornal. Ele simplesmente vai sair de sua aula com um produto de comunicação (o texto ou o desenho que irá para o jornal escolar).
O professor de português já trabalha com produção textual, e os professores das outras disciplinas, se não o fazem deveriam fazê-lo, porque o letramento é missão de todos na escola. O mesmo se pode dizer da pesquisa, do esforço para valorizar alunos e outras oportunidades que o jornal abre.
Passamos então a ter uma visão do jornal escolar como uma ferramenta. Fizemos até um cartaz bastante provocativo a esse respeito. O jornal não é um projeto, mas uma ferramenta do projeto pedagógico da escola, uma ferramenta da pedagogia de projetos ou mesmo uma ferramenta do projeto, que o professor tem em mente ao trabalhar com sua turma, o que é outra coisa.
Que resultados esperam com esta clarificação semântica?
Esperamos, em primeiro lugar, eliminar a resistência automática que a palavra “projeto” provoca – e que colava no jornal escolar. Também esperamos que o novo conceito do jornal como ferramenta induza a um aprofundamento da reflexão das escolas e secretarias de educação.
É inevitável se perguntar “se o jornal é uma ferramenta, que uso quero fazer dela?, para quê me serve?” Daí virá, esperamos, um melhor aproveitamento do jornal escolar.
* Daniel Raviolo é sociólogo pós-graduado em economia política. É fundador e coordenador-geral da ONG Comunicação e Cultura.
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Comentários
Uma pessoa comentou esse artigo
Concordo quando a matéria fala da sobrecarga de trabalho gerada pela demanda variada ocasionada pelas propostas de abordagem transversal, por outro lado, essas atividades são as que mais deixam a sensação de que vale o empenho empreendido no cotidiano escolar.